A comida no corpo


As comidas que a gente come separadamente vão todas para o estomago, tudo junto e misturado

Tira a tampa, enfia o bico da mangueira na boca do tanque e despeja a gasolina até encher ou até onde o bolso permitir. E parte abastecido, feliz da vida, sem ao menos pensar no destino do combustível.

Senta-se à mesa, abre a boca e vai enfiando as garfadas goela abaixo para o tanque estomacal, até encher ou até onde o bolso permitir. Abastecido, nem pensa no destino do alimento. Está tudo lá. Proteínas, carboidratos, gorduras, sal, açúcar, outros temperos, um comprimido de remédio, etc. Pode ser arroz, feijão, macarrão, pedaços de carne, até com nervos, mal mastigados, doces ou salgados. Mas tem também líquidos, que pode ser uns goles de refrigerante, de suco de frutas, cerveja, vinho, ou cachaça. Está tudo lá junto e misturado.

Alguém precisa me explicar essa história de que costela de vaca assada combina com vinho tinto seco, encorpado. É para mastigar o vinho com a carne como se faz com o pão com manteiga e café? É preciso salientar que não sou enólogo. Mas apenas médico. E sabemos que, de qualquer forma, se juntam no estomago. E para onde vão depois?

Vejamos de modo resumido o processo, para instigar a curiosidade. A mastigação tritura os alimentos sólidos, seguido pela deglutição que empurra o conteúdo da boca para baixo. A enzima amilase da saliva ajuda a decompor carboidratos, enquanto a protease do estomago, onde o meio é altamente acido, age digerindo alimentos ricos em proteínas, como as carnes, por exemplo. As lípases do suco pancreático, presentes abaixo do estomago, no qual o meio é altamente acido, trabalham nas gorduras ingeridas, em ambiente muito alcalino. A lactase no intestino digere a lactose, açúcar do leite. Quem sofre de intolerância à lactose tem falta de lactase.

As massas, mais exatamente os polissacarídeos, por exemplo o trigo, são transformados em açúcar de uma só molécula, prontos para o aproveitamento. Antes de o macarrão entrar no sangue ele vira açúcar.

Existem enzimas vegetais, como a papaína do mamão papaia e do abacaxi que digerem proteínas. Tem churrasqueiro que a usa para amolecer a carne.

Pois é. Após serem processados, os alimentos liberam também as vitaminas, os sais minerais, os eletrólitos, que já podem ser e são recolhidos pelo intestino. Os resíduos indigeríveis seguem adiante e serão eliminados pelas fezes. O sistema venoso encarregado disso é o chamado sistema porta. Ele leva tudo primeiro para o fígado, onde sofre novos processos antes da distribuição, pela circulação sanguínea geral, para “alimentar” ou intoxicar o organismo. É lá, no fígado, que o álcool chega primeiro e o faz sofrer, assim como outras substâncias toxicas, antes de serem lançadas na circulação geral, atingindo outros órgãos, incluindo o cérebro.

Existem meios de lançar compostos saudáveis ou maléficos, diretamente na circulação. Uma injeção na veia faz isso. Pode ser por inalação, por absorção sublingual e mesmo respiratória. Cada um usa o que lhe aprouver.

E olhe que, mesmo com tantos abusos, o fígado e seus órgãos auxiliares insistem heroicamente em funcionar, mesmo quando tudo parece perdido.

por  Jair Tadeu Oliveira

Médico e escritor