O primeiro homem


No livro “Para Não Morrer”,que lancei no início deste ano, há um poema chamado “Sobre a Morte e a Morte de Neil Armstrong”. Ele começa com esses versos:

Neil Armstrong morreu.

Faz tempo, mas me lembrei agora.

Sua imagem povoava meu imaginário de deuses imortais.

Havia algo no meu pensamento juvenil

Que lhe dava um ar de divindade.

Mas ele morreu humanamente.

Todos morrem.

Depois eu continuava falando sobre a morte, e que ela vem para todos, numa longa reflexão ritmada sobre o inexorável fim da vida. E terminava assim:

E por que foi morrer Neil Armstrong

Para desencadear esses pensamentos?

Talvez sejam necessários estes versos

(embora tão incompletos),

Esta reflexão com seu claro desconforto,

Para aceitarmos definitivamente

Que tudo o que ainda está vivo

Um dia estará bem morto.

Neste fim de semana fui assistir ao mais recente filme de Damien Chazelle, atualmente um dos meus diretores favoritos. Ele fez, por exemplo , o excelente “Whiplash” e um dos melhores musicais de todos os tempos, “La La Land”. Chazelle, que não se repete, mergulhou na história justamente de Neil Armstrong, o astronauta que motivou o poema com o qual comecei esta crítica. Armstrong morreu em 2012, aos 82 anos, após passar os anos de sua juventude vivendo os perigos dos testes nos programas espaciais dos EUA, em plena guerra fria, onde o que interessava era vencer a então União Soviética na corrida espacial.  Com pouco mais de 30 anos, após ver colegas mortos em graves acidentes com as naves, enfrentar dramas pessoais e a resistência da mulher, Armstrong se tornou o primeiro homem a pisar na lua. Sua trajetória até chegar àquele “pequeno passo para um homem,mas um salto gigante para a humanidade”, está contada nesse belo drama “O Primeiro Homem” (First Man), em exibição na cidade e em todo o país.

Quem espera alguma coisa semelhante a “Whiplash” ou “La La Land”, vai se surpreender. “O Primeiro Homem” é um drama intimista e, mesmo que trate de uma grande e verdadeira aventura espacial, seu foco é no ser humano, nas relações familiares, nas vidas perdidas em nome de uma conquista. Tecnicamente, contudo, o longa é belíssimo, e em vários momentos apresenta exuberância visual, sempre com uma trilha sonora inspiradíssima do parceiro de Chazelle,  Justin Hurowiz. Ryan Gosling está muito bem como o introspectivo Armstrong, quase sempre silencioso e permanentemente envolvido com o trabalho. Claire Foy é Janet, a esposa que luta pela atenção do marido e questiona sobre o valor de sua constante exposição ao perigo de morte. Foy é a competente atriz que interpreta a Rainha Elizabeth II na série “The Crown”, magnífico trabalho da Netflix.

Com “O Primeiro Homem”, ecos daquele julho de 1969 chegam às novas gerações e enternecem os corações dos mais velhos, muitos daqueles que estavam entre os milhões de espectadores que acompanharam, ao vivo, um dos maiores feitos do homem no século passado. O talento de Damien Chazelle nos entrega Neil Armstrong, não como um  herói do espaço, um deus imortal, mas como um ser humano comum, com suas obstinações, seus medos, suas angústias , sua coragem e suas lágrimas, num dos melhores filmes do ano.

COTAÇÃO: *****ÓTIMO

CINENOTAS

– Começa hoje uma semana de estreias importantes. Uma das mais esperadas do ano é “Bohemian Rhapsody”, contando a história de Freddie Mercury, o líder do Queen. Rami Malek, que interpreta o cantor, tem uma atuação elogiadíssima, e ele já desponta como um dos favoritos a uma indicação ao Oscar 2019 de Melhor Ator. Malek é bem conhecido por sua participação em Mr. Robot, série pela qual foi premiado.

– “Bohemian Rhapsody” teve filmagens tumultuadas, e o diretor Bryan Singer chegou a ser substituído por Dexter Fletcher, mas continua nos créditos como diretor.

– O consagrado diretor sueco Lasse Hallstrom chega também nesta semana com seu mais recente longa, “O Quebra-Nozes e os Quatro Reinos”, uma aventura com Keira Knightley, tendo Joe Johnston também na direção, ao lado de Hallstrom. Helen Mirren e Morgan Freeman estão no filme, e significam um  reforço de peso considerável ao elenco.

– A semana recebe também o novo filme do inquieto Lars Von Trier, “A Casa que Jack Construiu”, com Matt Dillon, Bruno Ganz e Uma Thurman. O dinamarquês Von Trier sempre causa barulho quando do lançamento de seus filmes. Só para lembrar, ele é o diretor do belíssimo “Melancolia” e do polêmico “Anticristo”, entre outros.

CINE VAGALUME

O Cine Vagalume, da FCA Unicamp, exibe nesta quarta-feira, 31, às 19h40min, o drama de Clint Eastwood de 1995 “As Pontes de Madison”. O longa, também estrelado pelo diretor, traz Meryl Streep num de seus grandes momentos. Intenso e comovente, o romance do par maduro vivido por Eastwood e Streep  fez e faz muito sucesso. A entrada é franca e a classificação é de 14 anos. O Cine Vagalume conta com o apoio da Secretaria de Cultura e da Câmara Municipal.

Por José Farid Zaine

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